Interpretação na Psicanálise: compreender não basta, é preciso saber quando dizer

Interpretação na Psicanálise e o momento da intervenção clínica
Interpretar, na Psicanálise, não significa adivinhar o que o paciente sente nem oferecer uma explicação pronta sobre sua vida. Neste artigo, você entende como a interpretação nasce da escuta clínica, por que o momento da intervenção importa e como evitar interpretações precipitadas, autoritárias ou desconectadas do material do paciente.

Introdução

A atenção flutuante, tema que trabalhamos anteriormente, ensina algo fundamental: o analista não deveria escutar apenas aquilo que confirma suas expectativas.

Freud recomendava uma forma de atenção em que nenhum elemento do discurso fosse privilegiado antecipadamente. Isso porque, ao escolher cedo demais o que considera importante, o analista corre o risco de encontrar apenas aquilo que já esperava encontrar.

A interpretação surge depois dessa escuta.

Primeiro, o terapeuta recebe o material.

Escuta associações, repetições, pausas, contradições, sonhos, atos falhos, resistências, mudanças de assunto e movimentos transferenciais.

Depois começa a perceber possíveis relações.

Só então surge a possibilidade de uma intervenção interpretativa.

Por isso, interpretar não é simplesmente compreender alguma coisa sobre o paciente.

É decidir se aquela compreensão pode — e deve — ser transformada em palavra naquele momento.


O que é interpretação na Psicanálise?

Em sentido técnico, a interpretação procura tornar compreensível algum aspecto do material psíquico que ainda não estava claramente acessível ao sujeito.

Pode envolver uma associação aparentemente casual, uma repetição, um lapso, uma defesa, uma reação transferencial, um sonho ou determinada forma recorrente de organização do discurso.

No texto Construções em análise, de 1937, Freud faz uma distinção particularmente útil. Ele reserva o termo interpretação para intervenções dirigidas a elementos relativamente delimitados do material, como uma associação ou um ato falho, enquanto chama de construção uma formulação mais ampla sobre fragmentos da história do sujeito.

Essa diferença é importante porque impede que qualquer explicação longa sobre a infância seja chamada automaticamente de interpretação.

Às vezes, uma interpretação pode ser pequena.

Uma pergunta.

Uma observação sobre uma palavra repetida.

Uma ligação entre duas frases que o próprio paciente acabou de dizer.

Uma intervenção curta pode produzir muito material.

E uma explicação brilhante de vinte minutos pode produzir apenas silêncio.


Interpretar não é dar conselho

Existe uma diferença essencial entre interpretação e orientação.

Quando o terapeuta afirma:

“Você precisa terminar esse relacionamento.”

“Deveria perdoar seu pai.”

“Você tem que aprender a colocar limites.”

ele está orientando, aconselhando ou expressando uma posição.

Pode haver contextos terapêuticos nos quais orientações sejam utilizadas, dependendo da abordagem e do objetivo clínico.

Mas isso não constitui, por si só, interpretação psicanalítica.

A interpretação procura abrir uma possibilidade de compreensão sobre como o sujeito participa daquele conflito, que sentidos inconscientes podem estar envolvidos e por que determinado padrão insiste em retornar.

Ela não entrega uma decisão pronta.

Ela amplia o campo de pensamento.


Interpretar também não é adivinhar

Outro erro frequente é transformar a Psicanálise em uma espécie de decodificador universal.

“Você sonhou com água, então significa isso.”

“Se cruzou os braços porque está resistindo.”

“Você esqueceu minha mensagem porque está com raiva de mim.”

Essa postura é perigosa.

Um mesmo comportamento pode ter significados completamente diferentes para pessoas diferentes.

A interpretação psicanalítica depende das associações do próprio sujeito, de sua história, do contexto da sessão e da dinâmica daquele tratamento.

Se a teoria chega antes do paciente, o risco é começar a encaixar pessoas dentro de conceitos.

E clínica não é prova de múltipla escolha.


Da atenção flutuante à interpretação

Existe uma relação direta entre associação livre e atenção flutuante.

O paciente é convidado a diminuir a seleção consciente do que vai dizer.

O analista, por sua vez, procura diminuir a seleção antecipada daquilo que vai considerar importante.

Freud apresentou essas duas posições como correspondentes: de um lado, uma fala menos censurada; do outro, uma escuta menos governada pelas expectativas conscientes do analista.

A interpretação aparece dentro desse encontro.

Por exemplo:

um paciente começa a sessão reclamando do chefe.

Depois fala sobre um professor antigo.

Mais adiante conta que sente dificuldade em contrariar o terapeuta.

Em três contextos diferentes pode estar aparecendo algo semelhante sobre autoridade, aprovação ou medo de confronto.

O analista pode perceber a repetição.

Mas perceber não significa necessariamente falar imediatamente.

É aqui que entra outro elemento fundamental:

O timing

Freud foi bastante explícito ao discutir interpretações prematuras.

Em Sobre o início do tratamento, de 1913, ele chama atenção para o fato de que comunicar ao paciente uma solução antes que ele esteja suficientemente próximo daquela compreensão pode produzir resistência em vez de elaboração.

Essa observação permanece clinicamente importante.

Uma interpretação pode ser teoricamente coerente e, ainda assim, ser inadequada naquele momento.

Imagine que o terapeuta perceba rapidamente determinada dinâmica de abandono.

Na segunda sessão, afirma:

“Você faz isso porque sua mãe não esteve emocionalmente disponível na infância.”

Talvez exista algum fundamento nessa hipótese.

Mas o paciente ainda não construiu associações suficientes.

O vínculo terapêutico ainda está começando.

A formulação pode soar invasiva, reducionista ou simplesmente estranha.

O problema não é apenas estar certo ou errado.

O problema pode ser ter chegado cedo demais.


Uma interpretação precisa ser suportável

Interpretação não é competição de profundidade.

Não ganha o terapeuta que encontra a causa mais escondida antes dos outros.

Uma intervenção útil precisa levar em conta a capacidade daquele paciente de pensar sobre o que está sendo apresentado.

Em algumas situações, será possível apontar diretamente uma repetição.

Em outras, uma pergunta será suficiente.

Às vezes, será melhor esperar.

Isso exige sensibilidade clínica.

Nem tudo que o terapeuta compreende precisa virar fala.


Interpretação e resistência

A resistência frequentemente aparece justamente quando determinado conteúdo começa a se aproximar de regiões mais conflitivas.

O paciente muda de assunto.

Intelectualiza.

Esquece.

Faz humor.

Chega atrasado.

Contesta de maneira incomum.

Ou simplesmente não consegue continuar.

A interpretação pode ajudar a reconhecer esse movimento.

Mas existe uma armadilha perigosa.

Se o terapeuta interpretar toda discordância como resistência, cria-se uma posição em que ele nunca pode estar errado.

Se o paciente concorda:

“acertei.”

Se discorda:

“é resistência.”

Se fica quieto:

“confirmei.”

Se protesta:

“confirmei ainda mais.”

Isso deixa de ser investigação.

Vira um sistema fechado.

A interpretação precisa permanecer aberta ao material que surge depois dela.


O efeito da interpretação importa mais do que o aplauso

O paciente não precisa responder:

“Nossa, doutor, é exatamente isso!”

para que uma interpretação produza trabalho psíquico.

Da mesma maneira, concordar imediatamente não prova que a intervenção foi adequada.

O que interessa é observar o que começa a acontecer depois.

Novas associações aparecem?

Uma lembrança emerge?

O paciente percebe outra relação?

Surge resistência?

O tema reaparece sob outra forma?

Alguma repetição começa a ser reconhecida?

Reconhecer determinado conflito não significa transformá-lo imediatamente.

Mudanças exigem repetição, elaboração e integração ao longo do processo.

Insight não é botão de reiniciar sistema.

Às vezes, compreender é apenas o começo.

Timing clínico e interpretação psicanalítica

Interpretação x construção

A distinção proposta por Freud em 1937 ajuda muito na prática.

Uma interpretação pode se dirigir a um elemento específico do material.

Uma construção reúne diferentes elementos e apresenta uma hipótese mais ampla sobre determinado fragmento da história psíquica do sujeito.

Por exemplo, diante de um lapso particular, o analista pode formular uma interpretação daquele elemento.

Já quando relaciona diferentes lembranças, repetições, fantasias e experiências para propor determinado modo pelo qual uma história infantil foi organizada psiquicamente, estamos mais próximos de uma construção.

Nos dois casos, porém, o analista não deveria ocupar o lugar de dono definitivo da verdade do paciente.

A intervenção precisa voltar ao processo.

E o processo precisa responder.


Uma pequena vinheta clínica

Considere uma situação fictícia.

Uma paciente costuma iniciar as sessões perguntando:

“Você acha que eu estou melhor?”

Depois de relatar uma decisão importante, pergunta:

“Você faria a mesma coisa?”

Quando o terapeuta permanece em silêncio por alguns segundos, ela imediatamente completa:

“Você não gostou do que eu fiz, né?”

Nas sessões seguintes, aparecem histórias de uma infância marcada por grande necessidade de aprovação de uma figura paterna exigente.

Seria fácil dizer:

“Você está me tratando como tratava seu pai.”

Talvez essa formulação seja possível em algum momento.

Mas o terapeuta poderia inicialmente trabalhar mais próximo da experiência presente:

“Percebo que, quando eu não respondo imediatamente, você parece concluir que fez alguma coisa errada.”

Essa intervenção não fecha o sentido.

Ela abre.

A paciente pode responder:

“Eu faço isso com todo mundo.”

Ou:

“Quando meu pai ficava quieto, eu sabia que vinha crítica.”

A partir daí, o próprio material começa a construir a ponte.

Uma boa interpretação não precisa arrastar o paciente até a conclusão.

Às vezes, basta iluminar alguns centímetros do caminho.

Interpretação e construção de sentido na clínica psicanalítica

Transferência: quando a interpretação entra na relação

A relação terapêutica também fornece material.

Expectativas antigas podem aparecer na maneira como o paciente percebe o terapeuta.

Alguém que teme abandono pode interpretar férias como rejeição.

Uma pessoa fortemente marcada por crítica pode perceber neutralidade como desaprovação.

Outra pode idealizar o terapeuta e buscar constantemente sua aprovação.

A interpretação da transferência procura ajudar o sujeito a perceber aspectos inconscientes dessa relação.

Entretanto, diferentes tradições psicanalíticas atribuem pesos diferentes à interpretação transferencial.

Isso é importante porque impede simplificações.

Psicanálise não é uma única técnica congelada no início do século XX.

Existe história, debate e desenvolvimento.


Erros comuns ao interpretar

Na prática clínica, alguns erros merecem atenção:

  • interpretar cedo demais, antes de haver material e vínculo suficientes;
  • transformar hipótese em certeza;
  • usar teoria como molde;
  • interpretar demais;
  • confundir interpretação com conselho;
  • interpretar para mostrar conhecimento;
  • tratar qualquer discordância como resistência;
  • ignorar transferência e contratransferência presentes na própria intervenção.

A técnica madura exige algo difícil:

capacidade de formular hipóteses sem se apaixonar por elas.


Como formular uma interpretação com mais prudência

Uma interpretação clínica tende a ser mais útil quando permanece próxima do material efetivamente apresentado pelo paciente.

Em vez de começar pela teoria mais profunda possível, começa-se por aquilo que pode ser observado.

Repetições.

Contradições.

Palavras que retornam.

Afetos.

Mudanças de assunto.

Reações ao terapeuta.

O profissional pode utilizar formulações que convidam à investigação:

“Percebi que isso apareceu novamente.”

“Será que existe alguma relação entre essas duas situações?”

“Quando tocamos nesse assunto, você rapidamente foi para outro tema.”

“Parece que meu silêncio ganhou para você um significado muito específico.”

Observe a diferença.

Não é:

“Eu sei por que você faz isso.”

É:

“Existe algo aqui que talvez possamos observar juntos.”

Esse pequeno deslocamento muda toda a posição clínica.


O analista não precisa interpretar tudo

Uma sessão não precisa terminar com uma grande revelação.

Há sessões de elaboração ou de silêncio.

Podem haver sessões em que o paciente começa a organizar algo que ainda não consegue nomear.

Há outras em que sustentar o vínculo é mais importante do que produzir uma formulação sofisticada.

Por isso, a técnica psicanalítica também envolve saber não intervir.

Interpretar demais pode ocupar exatamente o espaço que deveria permitir ao paciente associar.

A escuta clínica exige tolerância ao intervalo entre perceber e falar.


Interpretação, ética e supervisão

Quanto mais poderosa uma intervenção, maior a responsabilidade sobre seu uso.

O terapeuta ocupa uma posição de influência.

O paciente pode atribuir autoridade às suas palavras.

Isso significa que uma interpretação apresentada com certeza excessiva pode ser incorporada como verdade mesmo quando está equivocada.

Daí a importância da formação teórica, da análise pessoal e da supervisão clínica.

A supervisão é especialmente valiosa quando o terapeuta se percebe excessivamente convicto de determinada interpretação.

Às vezes, o que parece clareza clínica pode estar misturado à própria história do profissional.


Conclusão

Interpretar, na Psicanálise, não é desvendar um enigma escondido dentro do paciente.

É trabalhar com aquilo que aparece na fala, nos sintomas, nas repetições, nas resistências, nos vínculos e nos movimentos transferenciais, permitindo que determinados sentidos possam ser reconhecidos e elaborados.

Uma interpretação útil não precisa ser brilhante.

Precisa ser pertinente.

E pertinente significa considerar:

  • o material;
  • o vínculo;
  • a organização psíquica do paciente;
  • o momento do tratamento;
  • e aquilo que a intervenção poderá produzir.

Por isso, existe uma diferença importante entre compreender e interpretar.

Compreender acontece dentro do terapeuta.

Interpretar acontece dentro de uma relação.

E entre uma coisa e outra existe algo que nenhuma teoria substitui:

o momento clínico.


Autor

Guilherme Soares Neto — Presidente da FEBRATIS®

Terapeuta, psicoterapeuta sistêmico, mentor e educador. Fundador e presidente da FEBRATIS®, atua na formação e desenvolvimento de terapeutas, integrando Psicanálise, Terapia Sistêmica, TCC, PNL clínica e outras abordagens aplicadas ao cuidado em saúde mental.


Referências bibliográficas

INTERNATIONAL PSYCHOANALYTICAL ASSOCIATION. Inter-Regional Encyclopedic Dictionary of Psychoanalysis. International Psychoanalytical Association — IPA.
Acesso: IPA — Inter-Regional Encyclopedic Dictionary of Psychoanalysis

FREUD, Sigmund. Recommendations to Physicians Practising Psycho-Analysis (1912). In: The Standard Edition of the Complete Psychological Works of Sigmund Freud, v. 12, p. 111–120.
Acesso: Freud Edition — texto e dados bibliográficos da obra Freud Edition

FREUD, Sigmund. On Beginning the Treatment (1913). In: The Standard Edition of the Complete Psychological Works of Sigmund Freud, v. 12, p. 123–144.
Acesso: Freud Edition — Zur Einleitung der Behandlung Freud Edition

FREUD, Sigmund. Remembering, Repeating and Working-Through (1914). In: The Standard Edition of the Complete Psychological Works of Sigmund Freud, v. 12, p. 147–156.
Acesso: Freud Edition — Erinnern, Wiederholen und Durcharbeiten Freud Edition

FREUD, Sigmund. Constructions in Analysis (1937). In: The Standard Edition of the Complete Psychological Works of Sigmund Freud, v. 23.
Acesso: Freud Edition — Constructions in Analysis / Konstruktionen in der Analyse Freud Edition

GRIPPI, Rosanne. Construção e interpretação em Construções em análise (1937), de Sigmund Freud. Revista de Psicanálise Stylus, n. 25, p. 99–105, 2012.
Acesso: Revista de Psicanálise Stylus — artigo completo e DOI Stylus


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