Transtorno do jogo: quando as bets saem do controle

Guilherme Soares Neto diante de um celular com apostas online, representando o transtorno do jogo e a perda de controle.
As apostas online estão disponíveis 24 horas por dia e podem transformar diversão em perda de controle, dívidas e sofrimento emocional. Este artigo explica o transtorno do jogo, seus principais sinais, os impactos sobre a família e as possibilidades de acolhimento, prevenção e qualificação profissional.

O transtorno do jogo ganhou uma nova dimensão com a popularização das bets, dos cassinos online e das plataformas conhecidas como “jogo do tigrinho”. Antes, apostar geralmente exigia deslocamento, planejamento e acesso a locais específicos. Hoje, porém, a aposta acompanha a pessoa no bolso, funciona durante as 24 horas do dia e oferece uma nova rodada em poucos segundos.

Além disso, anúncios, bônus, influenciadores, patrocínios esportivos, notificações e meios de pagamento instantâneos transformaram a aposta em uma experiência contínua. Para muitas pessoas, ela permanece recreativa. Entretanto, para outras, o comportamento avança para perda de controle, endividamento, sofrimento emocional e ruptura de vínculos.

Por isso, o problema não deve ser reduzido a “falta de força de vontade”. O Ministério da Saúde já trata os danos associados às apostas como uma questão de saúde pública e publicou orientações específicas para acolhimento, acompanhamento e cuidado no Sistema Único de Saúde. (Serviços e Informações do Brasil)

Este artigo explica o que é o transtorno do jogo, por que as apostas digitais podem dificultar a interrupção do comportamento, quais sinais exigem atenção e como familiares e profissionais podem agir de forma responsável.

Importante: este conteúdo tem finalidade educativa. Ele não oferece diagnóstico individual nem substitui avaliação psicológica, médica, psiquiátrica ou multiprofissional.


Por que as bets e os jogos online ganharam tanto espaço

As apostas deixaram de ocupar apenas espaços físicos e passaram a disputar a atenção dentro do celular. Assim, a pessoa pode apostar em casa, no trabalho, durante uma partida esportiva, no transporte ou até durante a madrugada.

A facilidade de acesso reduz o intervalo entre impulso e comportamento. Em outras palavras, a pessoa pensa em apostar e, poucos segundos depois, já pode depositar dinheiro e iniciar uma rodada.

Ao mesmo tempo, a publicidade costuma associar as apostas a diversão, esporte, sucesso financeiro e pertencimento social. A Organização Mundial da Saúde alerta que a intensa promoção das apostas pela internet e pelo esporte pode normalizar o comportamento, inclusive entre crianças e jovens. (Organização Mundial da Saúde)

No Brasil, a Lei nº 14.790/2023 estabeleceu regras para as apostas de quota fixa. Contudo, regulamentar uma atividade não significa eliminar seus riscos. A regulação define obrigações para operadores autorizados, enquanto a prevenção e o cuidado em saúde continuam necessários. (Planalto)


Apostar não significa automaticamente ter transtorno do jogo

Nem toda pessoa que aposta apresenta uma doença. Portanto, profissionais e familiares precisam evitar tanto a banalização quanto o diagnóstico apressado.

Jogo recreativo

No jogo recreativo, a pessoa estabelece limites, não compromete despesas essenciais e consegue interromper a atividade sem sofrimento significativo.

Comportamento de risco

O comportamento se torna arriscado quando a frequência ou os valores aumentam, quando a pessoa começa a apostar em momentos de sofrimento ou quando tenta recuperar perdas rapidamente.

Jogo problemático

No jogo problemático, já existem prejuízos financeiros, emocionais, relacionais ou profissionais. Ainda assim, a pessoa pode não preencher todos os critérios para um transtorno.

Transtorno do jogo

O transtorno do jogo envolve perda de controle, prioridade crescente dada às apostas e continuidade do comportamento apesar das consequências negativas. A CID-11 o enquadra entre os transtornos relacionados a comportamentos aditivos. (Organização Mundial da Saúde)

A expressão “vício em apostas” ajuda o público a compreender o assunto. Entretanto, em conteúdos técnicos e profissionais, a denominação mais adequada é transtorno do jogo.


Por que pode ser tão difícil parar de apostar

Quem observa de fora costuma perguntar: “Se ele já perdeu tanto, por que continua?”. A resposta envolve aprendizagem, emoção, expectativa e diversos vieses cognitivos.

Antecipação da recompensa

O sistema de recompensa não responde apenas ao ganho. Ele também reage à expectativa e à incerteza. Por isso, o período entre fazer a aposta e descobrir o resultado pode se tornar altamente estimulante.

Contudo, isso não significa que a pessoa seja simplesmente “viciada em dopamina”. Essa explicação reduz um comportamento complexo a uma única substância. Na realidade, o transtorno envolve aprendizagem, impulsividade, regulação emocional, contexto social, acesso financeiro e padrões cognitivos.

Reforço intermitente

Nas apostas, os ganhos aparecem de forma imprevisível. A pessoa não sabe quando ocorrerá a próxima recompensa. Consequentemente, ela pode repetir o comportamento por mais tempo, porque cada nova tentativa mantém a possibilidade de ganho.

Sensação de quase acerto

Jogos semelhantes a caça-níqueis apresentam combinações que parecem estar próximas do prêmio. Embora o “quase acerto” não aumente a probabilidade de vitória, ele pode produzir a sensação subjetiva de que o ganho está chegando. A literatura estuda esse efeito há décadas, embora os resultados experimentais não sejam uniformes. (PMC)

Perseguição das perdas

Depois de perder, a pessoa pode pensar: “Preciso jogar de novo para recuperar”. No entanto, a nova aposta não corrige a anterior. Frequentemente, ela apenas amplia o prejuízo.

Falácia do jogador e ilusão de controle

A falácia do jogador leva a pessoa a acreditar que, depois de várias perdas, uma vitória “está para acontecer”. Já a ilusão de controle faz com que ela imagine possuir estratégias especiais para influenciar resultados que dependem essencialmente do acaso.

Aposta como fuga emocional

Algumas pessoas apostam para aliviar ansiedade, culpa, solidão, tristeza ou sensação de impotência. Nesse caso, a aposta não funciona apenas como busca de dinheiro. Ela também se transforma em uma estratégia de fuga.

Por isso, retirar o aplicativo sem tratar o sofrimento que alimenta o comportamento pode não ser suficiente.


Homem ansioso observando aplicativo de apostas no celular, representando reforço intermitente e perseguição das perdas.

Transtorno do jogo: principais sinais de alerta

Um sinal isolado não confirma diagnóstico. Entretanto, a presença repetida de vários sinais indica necessidade de avaliação profissional.

Observe especialmente:

  • necessidade de apostar valores cada vez maiores;
  • tentativas frustradas de reduzir ou parar;
  • pensamento constante nas apostas;
  • irritabilidade ou inquietação quando não consegue apostar;
  • retorno imediato ao jogo para recuperar perdas;
  • uso de dinheiro destinado a aluguel, alimentação, contas ou medicamentos;
  • empréstimos, crédito fácil e venda de bens;
  • ocultação de valores e mentiras para familiares;
  • alterações importantes no sono;
  • queda de desempenho profissional ou acadêmico;
  • isolamento, vergonha, culpa e ansiedade;
  • conflitos familiares frequentes;
  • uso das apostas para escapar de problemas;
  • sensação de desespero diante das dívidas.

O Ministério da Saúde disponibiliza um autoteste no Meu SUS Digital, mas deixa claro que esse recurso não realiza diagnóstico e não substitui avaliação profissional. O SUS oferece apoio por meio das Unidades Básicas de Saúde, CAPS e serviços de teleatendimento. (Miniapps)


Impactos emocionais, familiares, financeiros e profissionais

O transtorno do jogo raramente permanece restrito ao dinheiro.

Impactos emocionais

A pessoa pode experimentar ansiedade, depressão, irritabilidade, vergonha e isolamento. Além disso, a tentativa de esconder as perdas aumenta a tensão e dificulta a procura por ajuda. O Ministério da Saúde associa os problemas com apostas a sofrimento mental, endividamento e ruptura de vínculos. (Serviços e Informações do Brasil)

Impactos familiares

Quando surgem mentiras, dívidas e promessas repetidamente quebradas, a confiança familiar se desgasta. Frequentemente, parentes oscilam entre confronto, resgate financeiro e vigilância constante.

Contudo, acolher não significa pagar indefinidamente as dívidas ou eliminar todas as consequências do comportamento. Do mesmo modo, estabelecer limites não significa abandonar a pessoa.

Impactos profissionais e sociais

A preocupação constante com apostas pode reduzir concentração, produtividade e presença emocional. Em casos mais graves, a pessoa falta ao trabalho, utiliza dinheiro da empresa ou se afasta das relações sociais para esconder o problema.

Risco de suicídio

O risco exige atenção especial. Revisões e estudos observacionais associam problemas com apostas a maior frequência de ideação e tentativas de suicídio. Ainda assim, os pesquisadores alertam que comorbidades, contexto social e outros fatores também influenciam essa relação. (PubMed)

Se houver ameaça, planejamento, tentativa de autoagressão ou perigo imediato, não deixe a pessoa sozinha. Procure uma UPA, pronto-socorro ou CAPS, acione o SAMU pelo 192 e utilize o apoio emocional do CVV pelo 188. (Serviços e Informações do Brasil)


Como familiares podem ajudar sem alimentar o ciclo

A família ocupa uma posição difícil: precisa oferecer apoio sem assumir toda a responsabilidade pela recuperação.

Converse sem humilhar

Acusações como “você destruiu tudo” ou “basta ter vergonha na cara” aumentam a culpa e podem fortalecer a ocultação. Em vez disso, descreva fatos e consequências concretas.

Por exemplo:

“Percebemos dívidas, mentiras e mudanças no seu comportamento. Estamos preocupados e precisamos buscar ajuda.”

Não discuta enquanto a pessoa estiver apostando

Durante um episódio de forte ativação emocional, a capacidade de reflexão pode estar reduzida. Portanto, escolha um momento mais estável para conversar.

Estabeleça limites financeiros

A família pode proteger contas essenciais, revisar acesso a cartões, reduzir crédito disponível e organizar um levantamento realista das dívidas. Entretanto, essas medidas devem fazer parte de um plano, e não de uma guerra doméstica.

Evite o resgate repetitivo

Pagar todas as dívidas sem mudanças concretas pode retirar temporariamente a consequência e permitir que o ciclo recomece. Por isso, qualquer ajuda financeira precisa vir acompanhada de limites, transparência e busca de tratamento.

Procure ajuda para a própria família

Os familiares também sofrem. Portanto, eles podem precisar de orientação terapêutica, apoio social e educação sobre dependência comportamental.

Família conversando de forma acolhedora sobre dívidas, limites e tratamento para problemas com apostas.


Autoexclusão e redução do acesso às apostas

Desde dezembro de 2025, o Governo Federal disponibiliza uma plataforma centralizada de autoexclusão. Por meio dela, o cidadão pode bloquear seu acesso a todas as plataformas de apostas autorizadas pela Secretaria de Prêmios e Apostas, por prazo determinado ou indeterminado. A ferramenta também impede publicidade direcionada durante o período de exclusão. (Serviços e Informações do Brasil)

A autoexclusão representa uma barreira importante. Contudo, ela não substitui tratamento nem alcança necessariamente plataformas ilegais. Portanto, também pode ser necessário bloquear aplicativos, reorganizar meios de pagamento, limitar o acesso imediato a dinheiro e construir uma rede de apoio.


O que pode ser feito no tratamento do transtorno do jogo

O cuidado precisa considerar comportamento, emoções, cognições, família, finanças e comorbidades.

Terapia Cognitivo-Comportamental

A TCC trabalha pensamentos disfuncionais, gatilhos, estratégias de enfrentamento, prevenção de recaídas e crenças como “vou recuperar tudo na próxima aposta”. Revisões indicam que técnicas cognitivo-comportamentais podem reduzir a gravidade do transtorno e o comportamento de apostar, embora os resultados variem e os efeitos de longo prazo ainda exijam investigação. (PubMed)

Entrevista Motivacional

A Entrevista Motivacional ajuda a trabalhar ambivalência: uma parte da pessoa quer parar, enquanto outra ainda acredita no próximo ganho. Contudo, uma revisão recente encontrou evidência limitada para seu efeito isolado. Assim, ela deve integrar um plano mais amplo, e não ser apresentada como solução única. (PubMed)

Redução de danos e prevenção de recaídas

Nem todas as pessoas chegam prontas para interromper imediatamente. Por isso, estratégias graduais podem incluir limites financeiros, autoexclusão, monitoramento de gatilhos e reconstrução da rotina.

Além disso, recaídas não devem ser tratadas como prova de fracasso moral. Elas precisam ser analisadas: o que aconteceu antes, quais gatilhos apareceram e quais barreiras falharam?

Encaminhamento multiprofissional

Quando existem depressão, ansiedade, uso de substâncias, risco de suicídio ou grave desorganização financeira, o trabalho em rede se torna essencial. O Ministério da Saúde recomenda cuidado integrado pela Rede de Atenção Psicossocial, desde a Atenção Primária até CAPS, hospitais e urgência, conforme a gravidade. (Serviços e Informações do Brasil)


Por que terapeutas e profissionais do acolhimento precisam se preparar

Os problemas relacionados às apostas já chegam a consultórios, comunidades terapêuticas, grupos de recuperação, serviços sociais e unidades de saúde.

No entanto, o transtorno do jogo possui particularidades. O profissional precisa compreender:

  • o funcionamento das plataformas digitais;
  • a perseguição das perdas;
  • os vieses cognitivos;
  • a vergonha e a ocultação;
  • os riscos financeiros;
  • a dinâmica familiar;
  • a relação com ansiedade, depressão e uso de substâncias;
  • os limites entre acolhimento, rastreio, intervenção e diagnóstico;
  • os critérios de encaminhamento.

Além disso, quem atua tradicionalmente com dependência química precisa reconhecer semelhanças e diferenças entre dependências por substâncias e dependências comportamentais.

O profissional não precisa transformar toda sessão em aula de neurociência. Porém, ele precisa evitar moralismo, improvisação e explicações simplistas.


Perguntas frequentes sobre transtorno do jogo

Transtorno do jogo é a mesma coisa que gostar de apostar?

Não. O transtorno envolve perda de controle, prioridade crescente das apostas e continuidade apesar de danos relevantes.

O jogo do tigrinho pode causar transtorno do jogo?

Plataformas desse tipo funcionam como jogos de aposta. Entretanto, nem todo usuário desenvolverá um transtorno. O risco aumenta quando aparecem perda de controle, perseguição de perdas e prejuízos.

A família deve pagar as dívidas?

Não existe uma resposta única. Porém, pagar repetidamente sem limites e sem tratamento pode sustentar o ciclo. A família deve buscar orientação adequada.

A autoexclusão resolve o problema?

Ela reduz o acesso às plataformas autorizadas e pode ser decisiva. Contudo, normalmente precisa integrar um plano mais amplo de cuidado.

Terapeutas podem diagnosticar transtorno do jogo?

Somente profissionais legalmente autorizados devem realizar atos diagnósticos formais. Terapeutas podem acolher, observar sinais, utilizar instrumentos compatíveis com sua formação e encaminhar.


Conclusão

O transtorno do jogo não começa necessariamente com grandes dívidas. Muitas vezes, ele começa com uma aposta pequena, uma tentativa de recuperar uma perda e a convicção de que “na próxima vai dar certo”.

Por isso, prevenção e cuidado exigem informação, limites e escuta sem moralismo. A pessoa precisa assumir responsabilidade, mas também precisa receber condições reais para mudar.

Da mesma forma, os profissionais que recebem essa demanda precisam estudar. Boa intenção ajuda a abrir a porta; entretanto, conhecimento técnico, ética e rede multiprofissional sustentam o processo.

Quando as apostas evoluem, o cuidado também precisa evoluir.


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Sobre o autor

Guilherme Soares Neto é fundador e presidente da FEBRATIS® — Federação Brasileira de Terapeuta Integral Sistêmico. Atua como mentor, professor e terapeuta, integrando Terapia Sistêmica, Psicanálise, Neurociências, Terapia Cognitivo-Comportamental, Terapia Racional Emotiva Comportamental, práticas integrativas e espiritualidade aplicada à saúde emocional.

Seu trabalho está voltado ao desenvolvimento de terapeutas, conselheiros, monitores, facilitadores de grupos e profissionais interessados em uma atuação terapêutica mais ética, humana, técnica e responsável.


Referências bibliográficas e institucionais

  • Organização Mundial da Saúde. Gambling — Fact sheet. Critérios, riscos e impactos dos jogos de aposta. (Organização Mundial da Saúde)
  • Ministério da Saúde. Não Aposte Sua Saúde — Jogos de Aposta e Saúde Mental. (Serviços e Informações do Brasil)
  • Ministério da Saúde. Guia de Cuidado para Pessoas com Problemas Relacionados a Jogos de Apostas. (Serviços e Informações do Brasil)
  • Ministério da Fazenda. Plataforma Centralizada de Autoexclusão. (Serviços e Informações do Brasil)
  • Brasil. Lei nº 14.790, de 29 de dezembro de 2023. Regulamentação das apostas de quota fixa. (Planalto)
  • Pfund, R. A. et al. (2023). Effect of cognitive-behavioral techniques for problem gambling and gambling disorder: a systematic review and meta-analysis. (PubMed)
  • Eriksen, J. W. et al. (2023). Psychological intervention for gambling disorder: a systematic review and meta-analysis. (PubMed)
  • Forman, D. P. et al. (2025). Motivational-interviewing-informed interventions for problem gambling and gambling disorder. (PubMed)
  • Kristensen, J. H. et al. (2024). Suicidality among individuals with gambling problems: a meta-analytic literature review. (PubMed)
  • NICE. Gambling-related harms: identification, assessment and management. Diretriz NG248. (nice.org.uk)

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